
As horas fogem-me como as mais perfeitas frases que nos esquecemos por não ter papel e caneta à mão; os pés deslocam-me em piloto automático como o caminho que tenho feito nestas passadas manhãs sem reconhecer ou aperceber por onde conduzo, dando por mim no destino final... assim me sinto (...) anseio por um sinal, mordo-me por dentro por não ter um bilhete de avião possível para já, para agora, o qual certamente levaria no bolso onde fosse necessário... encontrar esses olhos rasgados, tão teus... tão teus. Uma rádio perfeita com música para suicídas. Finjo que durmo há uma semana mas nem por isso. O sono toma-me por detalhe e os poucos, tão essenciais, permitem-me que escreva agora estas frases sem jeito, sem saber se as traduzes e saboreias. Os meus dedos tornaram-se teus, já que não os controlo, já que te arrefecem a pele e te percorrem. Levanto-me várias vezes, contemplo o exterior, o silêncio, o sonho acordado que há segundos tive, o frio que me corre os braços e o pescoço tão rápido. Tal momento rotineiro passou a sê-lo sem fazer muito por isso, sem ter muito o que poder fazer para ser mais correcto. Aperto os olhos. Evito desabafos. A Primavera floresceu em mim mudança, atitude, dormência, areia nos olhos e estradas. Não preciso de mais um espelho, recuso-me a ter uma imagem para cada dia da semana, a usar diferentes diálogos para diferentes outros. Adaptação pela aceitação. Razão sobre o coração. Acho que não consigo, mas pratico em situação apática. Vejo gente do meu dia a deitar fora o que de melhor tem, olhos vendados, gente essa que após vividos tanto anos de vida sem viver, partilha construída num castelo de cartas, um ou dois orgulhos vencedores e conclusão fraca. Um imenso espanto ao vê-lo cair com um simples sopro. Um choque para uns, a naturalidade para outros. Estupidez geral. Estudo as minhas opções, pergunto-me em voz alta se essa porta estará aberta, pelo que deixo os meus sapatos à entrada e, descalço, cruzo a água da mais perfeita costa que consigo imaginar sóbrio.



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