20.2.09

Reticências


O sol tem-me dado força. Acordo com outro espírito, sinto que as coisas encarrilam por si só, sinto que não me tenho de esforçar sequer. Inteligente, original. Diferenças notadas em mim quando o recebo manejo a energia, não me importa com quem seja, uma ideia partilhada com ouvidos e telepatia. Realizar com ainda mais frequência o maravilhoso natural por exemplo, assistir às primeiras construções sublimes de quem começa a falar e a manipular com o meu sangue partilhado. As calças amarrotadas e os casacos vestidos semanas a fio fazem-me sentir mais eu, o cheiro, a minha marca deixada sem perguntas ou causas. Olho várias vezes para o meu antigo quadro de cortiça e viajo sobre o que já vivi e o que cada objecto cravado me ensinou por instantes, dias, meses (...) fotografias, cartões, postais, eventos, coisas minhas e de outros. Como mudei, como continuo o mesmo. Como ambiciono tornar a fazê-lo sempre, ainda que nunca percebam, quem prende o olhar a direito, espelhos com imagens distorcidas, portas para sempre trancadas, chaves que não cedo. Aos 23 anos quase ultrapassados penso no que será suposto fazer, penso em padrões, etiquetas. Pondero se o que é suposto tem algum significado para mim, se me fará evoluir ou somente dar-me noções de paraíso... que não é mais do que um sentimento, não se trata de encontrar-mos um sítio perfeito, mas sim sentirmo-nos perfeitos algures num sítio, algures em nós. Retenho a educação, o fascínio pelo desconhecido e o que tenho para dar.

11.2.09

Porto Seguro


Dias vividos sem porquês, um corpo que desperta e começa o dia. A água escorrida no largo dorso humano, o sol que raia e ofusca, os verdes que degustam páginas folheadas (...) o vento que me abraça. Corro as ruas da minha infância, as árvores que cresceram comigo e que, tão bem, largaram e generaram folhas e ramos, acolheram vida e respiraram cada noite. A simpatia mirada de quem passa, o olhar de quem fita, a companhia de quem não conhece e quer, o arrebatar do estudado, o derrubar do previsto, onde o dia acaba e renasce da cinza noutro sítio, noutros olhos, noutros sons trincados. A bondade de quem sente, a certeza de quem "sabia" que tal o era e não arredou e estendeu dentes. Teoria premeditada falhada do corpo que assim despertou, que receou a hipótese, que a demonstrou a seu prazer. Passos longos de mãos nos bolsos (...) carros cegos aqui e ali, símios mecanizados e gente que me faz acreditar que fazemos parte de um todo, que o todo faz parte de nós. Assim, um mero propósito, fez-me flutuar entre palavras escritas e carícias sopradas. Agora que escrevo não sinto o frio que me abraçou, mas recordo as conversas que não oiço, os olhares que ignoro e as chamas que molho ao meu estilo conciso, para por vezes apreciar o chão que calco, as folhas que estalo, as poças que piso.

4.2.09

Polaroid


Ambiente sereno de final de tarde, na companhia da chuva dura que estilhaça e então escorre no vidro frio da janela do quarto... som minimal e transcendente como os trocos soltos que trago no bolso. Passeio os dedos se tanto, nas páginas ásperas de um livro carregado que penso guardar para mais logo, já que o sabor adoçicado e espesso do café tarda e a deambulação espreita. Mais um quadro. O rapaz que abre os braços e absorve sentidos, como se desejasse possuir mais do que os dedos que uma mão conta, quando parecem transbordar de saturação amena. Troco impressões e agrados, trinco saudades de tempos gastos bem vividos e idolatrados que trago comigo, que me fazem aprender que nada sei e tenho mundo e meio para descobrir, pessoas para conhecer e abraçar. A ressaca... e muitos, muitos planos a concretizar. Ataque massivo (...) derreto e afundo-me, deixo que bata no fundo e me arraste, brinque e eleve bem alto.